Pedaços de mim

Pedaços de mim e do que me rodeia… Palavras soltas… Retalhos…

a borracha cansada 04/04/2009

Filed under: leitura — jo @ 23:15

Era uma vez uma borracha que quase deixou, por assim dizer, de apagar. Ela que dantes apagava tão bem!

Risco de lápis, risco de tinta, nada lhe escapava. E agora aquele cansaço, sem quê nem porquê. De que seria? A borracha foi ao médico.

Na sala de espera do consultório, estava também um lápis com soluços, que só desenhava linhas tracejadas. Veio depois, de maca, uma régua, que tinha perdido os centímetros e, também muito combalida, uma caixa de lápis de cor, descorados.

Quando o médico, depois de muito se ter feito esperar, finalmente chegou, quem primeiro atendeu foi o rancho de lápis de cor, porque já tinham consulta marcada, há que tempos.

Receitou-lhes vitaminas e ares de praia. Veriam que voltavam a ganhar cores, como dantes. E que fizessem exercício e que pintassem, primeiro um pouco e leve e depois com mais força. Era muito despachado este médico.

À régua sem centímetros deu-lhe de receita o lápis com soluços. Estavam um para o outro. O lápis com soluços de certeza que iria avivar os centímetros da régua e ela, por sua vez, lhe ensinaria a desenhar direito.

Sobrava a borracha que já apagava pouco.

  • Mas a senhora apagou imenso, ao que sei – disse-lhe o médico. – Uma ida inteira a apagar, esgota qualquer um.
  • Não aprendi a fazer outra coisa… – respondeu-lhe muito queixosa a borracha.
  • Pois agora descanse, porque está com um esgotamento. Precisa de férias – recomendou-lhe o médico. – A senhora está num risco muito grande.
  • Risco grande? – exclamou a borracha. – O que era isso, dantes, para mim…
  • Resguarde-se. É um aviso. Senão, apaga-se de vez.

Que horror! Para que tal não aconteça a borracha repousa agora na minha secretária, a ver passar os riscos que eu vou traçando no papel. E, para não perder o treino, lá lhe consinto que apague um pontinho aqui, um pontinho ali, por desfastio. Vão ver que, qualquer dia, já está boa, outra vez.

 

António Torrado, Da Rua do Contador para a Rua do Ouvidor

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