Pedaços de mim

Pedaços de mim e do que me rodeia… Palavras soltas… Retalhos…

uma pequena força 28/07/2008

Filed under: educação,escritos,espírito — jo @ 17:17

Vamos por partes.

A Vivi, como gosto de lhe chamar e como ela própria me pediu para o fazer, é uma menina grande de 7 anos, e este “grande” refere-se à altura e à força demonstrada, pela qual me apaixonei faz amanhã uma semana. Dela sabemos pouco…

Sabemos que nasceu no dia de Verão e a irmã no dia dos reis (21 de Junho e 6 de Janeiro, supomos nós… pois elas não sabem dizer o dia e o mês) e que distam apenas – se fizerem as contas conseguem acompanhar-me – 6 meses e pouco mais de 10 dias uma da outra. Tendo em conta que a Vivi tem 7 anos e a Ângela 6, a irmã mais nova terá sido “fabricada” logo depois da Vivi nascer e nascido muito prematura…

São adoptadas há pouco mais de um ano por um casal cujo colo é alvo preferido das duas ao final de um dia de colónia.

Enquanto a Ângela demonstra ser muito mais infantil do que a idade aponta, a Vivi comporta-se tal qual criança de 10 anos pronta a fazer estragos.

A primeira vez que travei conversa com ela foi à porta da casa de banho onde, depois de ela não ter respeitado a fila e ter sido muitíssimo mal educada, esperei uns bons minutos até que ela se decidisse a falar comigo. A muito custo lá consegui, dizendo apenas que tinha pena que ela demonstrasse não ter interesse em ouvir as pessoas, mesmo fazendo-o, pois as pessoas fartavam-se, e no fim acabaria por não ter tanta gente disposta a ouvi-la. Conversa feita, afastei-me, sempre amigavelmente.

Passado uns minutos, ao vir fazer queixinhas aos monitores sobre outra criança, tentei dar-lhe uma festa na mão, ao que ela prontamente a afastou. Fiz-lhe uma cara triste e disse-lhe que apenas lhe queria dar um mimo. Apontou-me logo as duas mãos denunciando querer mais…

Assim começou a nossa relação. Daí até querer ficar ao meu lado no autocarro foi um passo, até não me querer largar foi outro.

A Vivi não faz tudo o que eu digo à primeira, é preciso paciência. Mas a verdade é que nunca lhe gritei, nunca fui bruta, nunca desci ao nível dela, nunca lhe fiz aquilo que estão sempre a dizer para ela não fazer.

Segunda feira o seu comportamento não foi aconselhável mas terça e quarta foi melhorando, nunca deixando de ser um desafio à paciência de qualquer monitor. Ainda assim, quarta-feira, ao chegar à Junta de Freguesia, voltadas que estávamos de mais um dia de colónia, uma das monitoras responsáveis pela Vivi falou com o pai dela dizendo-lhe que há três dias que a filha se portava muito mal. A Vivi ouviu e calou… A mim caiu-me tudo… Tentando fazer aquilo que a Vivi estava à espera de mim e aquilo que eu considero correcto, disse ao pai, já depois da monitora se ter afastado, que apesar de algumas coisas más, o comportamento dela estava melhor a cada dia.

Não devo precisar de dizer muito para adivinharem como se comportou a Vivi no dia seguinte… Preciso?

Tudo o que tinha feito mal nos últimos três dias juntou tudo num só e arruinou a cabeça às suas duas monitoras. No final do dia, voltou a haver “queixinhas” ao pai e ela não voltou mais…

Agora pergunto… não percebem estas almas porque ela se portou mal ao quarto dia? Será assim tão difícil ver que se sentiu atraiçoada?

E o comportamento? Já repararam que se só falam com ela aos berros é assim que ela vai responder? Que se só nessas alturas lhe ligam alguma coisa, é assim que ela vai continuar a chamar a atenção?!

É triste… é triste ver pessoas responsáveis por crianças que a única coisa que pensam é no seu comodismo. As crianças não estão lá para nos facilitarem a vida! Nós é que estamos lá para garantir que se divertem e que o fazem em segurança!

A Vivi foi abandonada pela primeira família, vive agora com outra e parece estar condenada a ser abandonada por todos aqueles que a consideram um “trabalho”.

 

A Vivi não faz parte do grupo de crianças pelo qual sou responsável mas foi aquela que, pela sua força, me cativou. Nos olhos dela está o seu mundo, e só alguém muito distraído não o vê.

 

Dela sabemos pouco… mas sabemos que é uma força de vida, que é uma guerreira e que tem um abraço que sufoca o mais calmo dos corações.

 

Tenho saudades

 

Vivi, vens amanhã?

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One Response to “uma pequena força”

  1. sara Says:

    Imagino pelas palavras como será a Vivi…fiquei a pensar nela, mesmo sem a conhecer…e em TI…é por isto que te adoro…o caminho é esse, é essa a pedagogia que quero seguir…é isso que me dá vontade, que me dá garra de seguir aquele caminho… Beijo grande à minha amiga e à minha futura querida professora 🙂


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