Pedaços de mim

Pedaços de mim e do que me rodeia… Palavras soltas… Retalhos…

adeus 21/11/2010

Filed under: escritos,espírito — jo @ 22:17



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

 

 

dói-me 28/10/2010

Filed under: escritos,espírito — jo @ 21:26

Dói-me a minha ausência. O meu silêncio.

Dói-me o custo dos dias, a imensidão das incertezas.

Dói-me a coragem a emergir do fundo.

 

Não importa só o talento… 29/09/2010

Filed under: escritos — jo @ 18:46

Ninguém nasce com talento. O talento educa-se como outra coisa qualquer. Há pessoas que não sabem fazer nada porque têm falta de cultura ambicional. Eu não sei se é assim que se escreve, se existe esta cultura ambicional, mas para os devidos efeitos, isto foi inventado agorinha mesmo. O que quero mesmo dizer, é que não existindo ambição, não existirá talento. As coisas não têm que ser feitas porque tem que ser. E vivemos num país onde a grande maioria das pessoas justifica a sua actividade, como se isso fosse uma penosa fatalidade. Pergunte-se: Então, senhor Joaquim, tem trabalhado muito? E é certinho que este nos responde: Pois, tem de ser.
É uma pena que trabalhar seja uma coisa que tem de ser. E se é certo que ajuda fazer aquilo que gostamos, fazer aquilo que não gostamos não tem que ser obrigatoriamente porque tem que ser. Podemos ser os melhores a fazer aquilo que gostamos, mas mais admirável do que isso, é sermos os melhores a fazer aquilo que não gostamos. Reparem só, eu gosto de escrever para este jornal, mas se tivesse que trabalhar no MacDonald’s, mesmo não percebendo nada de restauração, mesmo não gostando, eu queria ser o Funcionário do Mês. Com fotografia e tudo. Para toda a gente ver. Com os meus dentinhos brancos muito bem alinhados. Mas não, não podemos comer só o que queremos. Por vezes, temos que sorver a sopa toda e o peixe cozido que é o que há. Por vezes temos que ir mais cedo para a cama, porque amanhã se faz cedo. Eu gostava que imaginassem Isabel Alçada a dizer isto. Não soa bem? Não é maravilhoso?
Pois bem, o que daqui se conclui – e reparem na grande moral – é que temos que viver com os nossos defeitos e fazer deles características distintivas. Das nossas inabilidades, singularidades comentadas. Dos nossos azares, o melhor que nos podia ter acontecido. E o talento aparece exactamente aí, na forma inventiva, como conseguimos disfarçar que a comida é de ontem.
Falta cultura ambicional ou o quer que lhe chamem. Não importa só talento, o talento por si só, de nada serve. Eu bem sei que é nobre pensarmos que isso é mais importante do que ter ambição. Mas não me peçam para ter talento e depois não ganharmos o jogo. É preciso ganhar o jogo. Cerrar os dentes. Perceber que só a vitória interessa. Que o talento só não basta, que um jogo não se ganha só porque tem de ser.

Fernando Alvim

 

caminho 18/09/2010

Filed under: escritos,espírito — jo @ 18:27

Tive dúvidas sobre se algum dia voltaria a escrever aqui. A voracidade dos dias, a vida citadina e agitada fizeram-me acelerar os meus próprios pensamentos (deixando quase de os escutar)… Depois de um ano de sobrevivência, de um ano de desafio e lutas constantes, vieram as tréguas… Foram momentâneas. Demasiado…

Dias depois da penúltima publicação veio uma onda, e outra, e outra, e mais uma. E eu mergulhei. Mergulhei para poder respirar, mergulhei para poder prosseguir.

Disseram-me uma vez que não era suposto deixar-me levar pela corrente. Que era suposto lutar pelo meu rumo. Mesmo que para isso tivesse de atravessar um revolto leito numa canoa danificada. Disseram-me uma vez que o triunfo estava do outro lado, numa praia… Numa fogueira… Disseram-me uma vez que no outro dia… No outro dia era preciso continuar a caminhar.

E eu caminhei.

Levo comigo a canoa, levo as pedras roladas pelas água. Levo comigo a brisa da praia, o quente da fogueira e as estrelas que a acompanhavam.

Levo comigo a certeza de  que os rios foram feitos para atravessar, a certeza de que os caminhos foram feitos para trilhar.

 

princesa

Filed under: escritos,retalhos,tempo — jo @ 18:24

Os dias passam e as memórias aglomeram-se em nós. Pedaços de histórias, de gentes… Pedaços de um outro tempo que nos fez sonhar. E há este tempo, o de agora. O tempo em que cada uma de nós se tornou mulher. E se falo em mulher é em todos os sentidos, em todas as suas formas. Somos o resultado do que vivemos, do que sempre, mal ou bem, partilhámos.

É que neste caminho que cruzámos, que trilhámos, relembro partilhas tão profundas, risos tão genuínos, que dificilmente os conseguirei traduzir aqui.

Tornaste-te naquilo que realmente sempre foste, ainda que te procurasses: numa brisa de mar numa quente tarde de primavera. No teu sorriso levas o mundo, nas tuas mãos as danças de outrora. Ao teu redor permanecem aqueles que te amam, porque dificilmente se conseguem afastar. És responsável por aquilo que cativas. E se cativas…

É um privilégio poder partilhar contigo a tua, a minha, a nossa vida.

Admiro-te publicamente.

Amo-te profundamente.

 

cântigo negro 10/02/2010

Filed under: escritos,leitura — jo @ 19:34

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

 

deslealdade 08/01/2009

Filed under: escritos,espírito — jo @ 15:37

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Desculpem o tradicionalismo mas não aceito traições. Não acredito no vou ali e já volto, é só por hoje e pela manhã voltarei a ser quem era, não acredito… Podem chamar-me antiquada, fora de época ou de mente fechada. Mas a verdade é que acredito no amor. Acredito nas mil e uma formas de amar, incondicionalmente, abertamente, coloridamente, respeitosamenteplatonicamente, à distância ou apenas sexualmente. Acredito por isso que cada um de nós pode amar inúmeras pessoas e com estas ter relações com contornos diferentes. Mas compromissos, meus amigos?! Compromissos são compromissos. Se querem ter dois amigos coloridos, um assim-assim e um outro para as férias, tenham. Aproveitem a vida! E digo-o com a maior das sinceridades. Mas com compromissos é outra história…

Compromissos exigem entrega, partilha a cem por cento, disponibilidade. Exigem a abertura da nossa vida para outro alguém.

Por isso digo que namorar, casar, envelhecer ao lado de alguém não é para todos. E nisso não há nada de mal!

Pessoalmente, gosto muito mais da ideia de partilhar a vida… mas isso, isso são opiniões…